A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é uma abordagem científica que visa compreender e melhorar comportamentos humanos socialmente relevantes. Ela se baseia em princípios do aprendizado e do comportamento para desenvolver intervenções eficazes.
Críticas frequentemente levantadas sobre a ABA:
Robotização e Mecanização do Comportamento: Uma das críticas mais comuns é que a ABA pode levar a comportamentos que parecem "robotizados" ou "mecanizados", sem naturalidade, especialmente quando o ensino é muito focado em respostas discretas e repetitivas.
Supressão de "Stims" (Comportamentos Autoestimulatórios): Muitos autistas criticam a tentativa de eliminar ou reduzir "stims" (comportamentos autoestimulatórios, como balançar, mexer as mãos), que são vistos por eles como formas de autorregulação e expressão, e não necessariamente como comportamentos problemáticos.
Foco em "Normalizar" o Indivíduo: Há a percepção de que a ABA busca fazer com que pessoas autistas se encaixem nos padrões neurotípicos, em vez de aceitar e valorizar a neurodiversidade.
Uso de Punição (Histórico): Embora a ABA moderna evite o uso de punição, historicamente a abordagem utilizou técnicas aversivas. Isso gerou traumas em alguns indivíduos e é uma fonte persistente de críticas.
Potencial de Traumatização: Relatos de autistas adultos que passaram por ABA na infância descrevem a experiência como traumática, sentindo-se "adestrados" ou forçados a suprimir suas características naturais.
Intensidade e Carga Horária Elevada: Os programas de ABA geralmente exigem muitas horas de terapia por semana, o que pode ser exaustivo para a criança e a família, sobrecarregando o indivíduo e podendo causar estresse e crises.
Falta de Respeito à Autonomia da Criança: Críticos argumentam que, em algumas aplicações, a ABA pode não dar voz suficiente à criança ou considerar seus interesses e motivações intrínsecas.
Generalização Insuficiente: Embora a generalização seja um dos princípios da ABA, na prática, alguns programas podem falhar em garantir que as habilidades aprendidas na terapia sejam aplicadas em outros ambientes e com outras pessoas.
Dependência do Terapeuta: Se não for bem planejada, a intervenção pode criar uma dependência do terapeuta, onde a criança só se comporta de determinada maneira na presença dele.
Aplicações Uniformes e Não Individualizadas: A crítica de que a ABA é aplicada como um "manual" rígido, sem considerar a individualidade e as características específicas de cada pessoa dentro do amplo espectro do TEA.
Ênfase Excessiva em Déficits em vez de Forças: Alguns argumentam que a ABA se concentra mais na redução de comportamentos problemáticos e no desenvolvimento de habilidades em que há déficits, em vez de identificar e potencializar as forças e interesses do indivíduo.
Custos Elevados e Acesso Limitado: As terapias ABA podem ser muito caras, e a dificuldade de acesso a profissionais qualificados e a cobertura por planos de saúde é um obstáculo significativo para muitas famílias.
Alta Rotatividade de Pessoal: A alta rotatividade de terapeutas e assistentes de ABA pode prejudicar a consistência e a qualidade do tratamento, especialmente para indivíduos que dependem de rotinas e familiaridade.
Foco Limitado em Habilidades Sociais Complexas: Algumas críticas apontam que a ABA pode ser mais eficaz para ensinar habilidades básicas e funcionais, mas menos eficaz para desenvolver habilidades sociais mais complexas, como empatia e compreensão de nuances sociais.
Não Aborda as Causas Subjacentes: A ABA foca na modificação do comportamento observável, mas críticos argumentam que ela pode não abordar as causas subjacentes ou os fatores internos que levam a certos comportamentos.
Visão Reducionista do Ser Humano: A abordagem é vista por alguns como reducionista, tratando o ser humano como um conjunto de comportamentos isolados, sem considerar a complexidade da experiência interna, emoções e pensamentos.
Origens Históricas e Éticas Questionáveis: Alguns críticos apontam para as origens da análise do comportamento, que em alguns momentos envolveu aversivos e uma perspectiva de controle, levantando preocupações éticas sobre a filosofia subjacente.
Ausência de Neurodiversidade no Desenvolvimento da Abordagem: A ABA foi desenvolvida por neurotípicos, e a comunidade autista frequentemente se sente excluída do processo de definição de objetivos e estratégias de intervenção.
Falta de Foco em Aspectos Emocionais e Saúde Mental: Embora indiretamente possa haver melhorias, a ABA não tem um foco central em questões de saúde mental, ansiedade ou regulação emocional em si, que são cruciais para muitos autistas.
Riscos de Aplicação por Profissionais Não Qualificados: A falta de regulamentação e certificação rigorosa em alguns locais pode levar à aplicação inadequada da ABA por profissionais sem o treinamento e a ética necessários, o que amplifica muitas das críticas mencionadas.
Conceitos Fundamentais da ABA
Para entender a ABA, é essencial conhecer seus conceitos chave:
Comportamento: Na ABA, "comportamento" refere-se a qualquer ação observável e mensurável que um organismo faz. Não se trata apenas de comportamentos problemáticos, mas também de habilidades e ações que queremos desenvolver.
Comportamentos-alvo: São os comportamentos específicos que se deseja aumentar (ensinar ou fortalecer) ou diminuir (reduzir ou eliminar).
Antecedente (A): É o que acontece antes do comportamento. São os estímulos ou eventos no ambiente que precedem uma ação e podem influenciar sua ocorrência.
Exemplo: Um professor dá uma instrução ("Pegue o lápis").
Comportamento (B): É a resposta observável do indivíduo ao antecedente.
Exemplo: A criança pega o lápis.
Consequência (C): É o que acontece depois do comportamento. As consequências podem aumentar ou diminuir a probabilidade de um comportamento ocorrer novamente no futuro.
Exemplo: O professor elogia a criança ("Muito bem!").
Esses três termos formam o Modelo ABC (Antecedente-Comportamento-Consequência), que é a base para a análise e intervenção comportamental.
Reforço: É o processo pelo qual uma consequência aumenta a probabilidade de um comportamento se repetir no futuro.
Reforço Positivo: Adicionar algo agradável (um elogio, um brinquedo, acesso a uma atividade preferida) após um comportamento desejado para que ele ocorra com mais frequência. É o pilar da ABA.
Exemplo: A criança responde corretamente e ganha um adesivo.
Reforço Negativo: Remover algo aversivo ou desagradável após um comportamento desejado para que ele ocorra com mais frequência.
Exemplo: A criança completa uma tarefa chata e, como resultado, não precisa fazer outra atividade que não gosta. (Não confundir com punição).
Punição: É o processo pelo qual uma consequência diminui a probabilidade de um comportamento se repetir no futuro. Geralmente envolve a apresentação de um estímulo aversivo ou a remoção de um estímulo agradável. Embora seja um princípio comportamental, a ABA moderna prioriza o reforço positivo e busca minimizar o uso de punições.
Extinção: É a retirada do reforço para um comportamento previamente reforçado, a fim de diminuir a frequência desse comportamento.
Exemplo: Uma criança chora para chamar atenção e o pai ignora o choro, não dando atenção (retirando o reforço que era a atenção).
Modelagem (Shaping): É o processo de reforçar aproximações sucessivas de um comportamento-alvo até que o comportamento completo seja aprendido. É útil para ensinar habilidades complexas.
Exemplo: Para ensinar a criança a escrever o nome, primeiro se reforça apenas segurar o lápis, depois fazer um traço, depois uma letra, e assim por diante.
Encadeamento (Chaining): Ensinar uma sequência de comportamentos para completar uma tarefa complexa. A tarefa é dividida em pequenas etapas, e cada etapa é ensinada em ordem.
Exemplo: Escovar os dentes pode ser dividido em: pegar a escova, colocar pasta, molhar a escova, escovar os dentes, cuspir, enxaguar.
Prompting (Dicas/Pistas) e Fading (Remoção Gradual de Dicas):
Prompting: Oferecer ajuda (verbal, gestual, física) para que o indivíduo realize o comportamento desejado.
Fading: Retirar gradualmente as dicas à medida que o indivíduo se torna mais independente na realização do comportamento. O objetivo é que o comportamento ocorra sem qualquer ajuda.
Generalização: A capacidade de aplicar uma habilidade aprendida em diferentes contextos, com diferentes pessoas, materiais ou em diferentes momentos. É crucial para que as habilidades sejam funcionais na vida real.
Exemplo: Uma criança aprende a pedir "água" em casa e consegue usar essa palavra também na escola ou na casa da avó.
Análise Funcional: É o processo de identificar a "função" ou o "propósito" de um comportamento. Todo comportamento ocorre por uma razão. As principais funções do comportamento são:
Atenção: O comportamento ocorre para obter atenção de outras pessoas (positiva ou negativa).
Fuga/Esquiva: O comportamento ocorre para escapar ou evitar uma situação, demanda ou tarefa indesejada.
Acesso a Tangíveis/Atividades: O comportamento ocorre para obter um item preferido ou acesso a uma atividade.
Estimulação Sensorial: O comportamento produz uma sensação interna que é reforçadora para o indivíduo (autoestimulação).
7 Dimensões da ABA
Além desses conceitos, a ABA é definida por sete dimensões, que garantem sua aplicação eficaz e ética:
Aplicada: Foca em comportamentos que são socialmente significativos e relevantes para a vida do indivíduo.
Comportamental: Baseia-se em comportamentos observáveis e mensuráveis.
Analítica: Demonstra uma relação funcional entre as intervenções e as mudanças no comportamento (usa dados para tomar decisões).
Tecnológica: Os procedimentos são descritos de forma clara e detalhada, permitindo que outros possam replicá-los.
Conceitualmente Sistemática: As intervenções são baseadas em princípios da análise do comportamento (como reforço, extinção, etc.).
Eficaz: As intervenções produzem mudanças significativas e duradouras no comportamento.
Generalizável: As mudanças comportamentais se mantêm ao longo do tempo e se estendem a diferentes ambientes e situações.
A ABA é uma ciência em constante evolução, e a compreensão desses conceitos é fundamental para sua aplicação correta e para promover o desenvolvimento e a independência dos indivíduos.
exemplos de estratégias frequentemente usadas na ABA:
Reforço Positivo: Conceder um item preferido, elogio, acesso a uma atividade divertida ou um sinal de "ótimo trabalho" imediatamente após a ocorrência de um comportamento desejado para aumentar a probabilidade de que ele aconteça novamente.
Exemplo: Uma criança pede "mais suco" e imediatamente recebe o suco e um elogio.
Reforço Diferencial de Comportamentos Alternativos (DRA): Reforçar um comportamento alternativo e mais apropriado enquanto se coloca o comportamento problemático em extinção.
Exemplo: Em vez de gritar para chamar atenção, a criança levanta a mão e é imediatamente elogiada e atendida, enquanto o grito é ignorado.
Extinção: Remover o reforço que mantém um comportamento problemático, fazendo com que ele diminua gradualmente.
Exemplo: Uma criança chora para obter um brinquedo, e o adulto não cede ao choro, não dando o brinquedo até que o choro pare.
Modelagem (Shaping): Reforçar aproximações sucessivas de um comportamento-alvo até que o comportamento completo seja dominado.
Exemplo: Para ensinar a criança a falar "bola", primeiro se reforça o som "b", depois "bo", e então a palavra completa "bola".
Encadeamento (Chaining): Dividir uma tarefa complexa em etapas menores e ensinar a sequência dessas etapas. Pode ser "para frente" (ensinar a primeira etapa, depois a segunda, etc.) ou "para trás" (ensinar a última etapa primeiro e ir regredindo).
Exemplo: Ensinar a rotina de lavar as mãos (abrir a torneira, molhar as mãos, pegar o sabonete, etc.) passo a passo.
Instrução de Tentativas Discretas (DTT - Discrete Trial Teaching): Uma estratégia estruturada onde uma instrução clara é dada, a criança responde, e a consequência é fornecida, geralmente em um ambiente controlado e repetitivo.
Exemplo: O terapeuta diz "aponte para o cachorro", a criança aponta, e o terapeuta diz "muito bem!" e oferece um reforçador.
Ensino em Ambiente Natural (NET - Natural Environment Teaching): Ensinar habilidades dentro do contexto natural e funcional onde a habilidade será utilizada, aproveitando as motivações da criança.
Exemplo: Ensinar a pedir um biscoito quando a criança vê um biscoito e demonstra interesse.
Prompting (Dicas): Fornecer ajuda para garantir que o indivíduo realize o comportamento correto. As dicas podem ser físicas (ajuda manual), visuais (figuras), verbais (instruções), gestuais (apontar), ou de posição.
Exemplo: Guia física para ajudar a criança a pegar o lápis corretamente.
Fading (Remoção Gradual de Dicas): Reduzir gradualmente a intensidade ou a frequência das dicas à medida que o indivíduo se torna mais independente na realização da habilidade.
Exemplo: Começar com ajuda física total para a criança vestir a camisa e, aos poucos, diminuir a ajuda até que ela consiga sozinha.
Modelagem por Imitação (Modeling): Demonstrar o comportamento desejado para que o indivíduo possa imitá-lo.
Exemplo: O terapeuta demonstra como construir uma torre de blocos e pede para a criança fazer igual.
Reforço de Reforçadores (Pairing): Associar o terapeuta e o ambiente de terapia a experiências agradáveis, como brincadeiras e itens preferidos, para que o terapeuta se torne um reforçador por si só.
Exemplo: O terapeuta oferece brinquedos e interage de forma divertida com a criança antes de iniciar as instruções formais.
Manejo de Contingências (Contingency Management): Organizar as consequências para os comportamentos, deixando claro o que acontece quando um comportamento ocorre ou não.
Exemplo: "Se você terminar sua lição de casa, você pode jogar videogame por 30 minutos."
Economia de Fichas (Token Economy): Um sistema onde fichas (ou pontos, estrelas) são dadas como reforço imediato por comportamentos desejados. Essas fichas podem ser trocadas posteriormente por um reforçador maior.
Exemplo: A criança ganha uma ficha por cada tarefa completada e, ao acumular 10 fichas, pode escolher um brinquedo da caixa de prêmios.
Análise Funcional do Comportamento (FBA): Um processo para identificar a função (o "porquê") de um comportamento desafiador, observando os antecedentes e as consequências. Essencial para planejar intervenções eficazes.
Exemplo: Observar que a birra de uma criança sempre ocorre quando ela quer um brinquedo específico (função: acesso a tangível).
Programação de Generalização: Criar oportunidades para que as habilidades aprendidas sejam usadas em diferentes ambientes, com diferentes pessoas, e com diferentes materiais.
Exemplo: Praticar a habilidade de pedir "água" na escola, em casa e na casa da avó.
Ensino por Tentativas Aleatórias (Random Rotation): Apresentar instruções de forma variada e imprevisível para garantir que a criança não esteja apenas memorizando a ordem, mas realmente aprendendo a habilidade.
Exemplo: Em vez de sempre pedir "aponte o cachorro", depois "aponte o gato", variar a ordem das perguntas.
Reforço Diferencial de Outro Comportamento (DRO): Reforçar o indivíduo por não exibir um comportamento indesejado por um determinado período de tempo.
Exemplo: Se a criança não morder os lábios por 5 minutos, ela ganha um pequeno reforçador.
Interrupção e Redirecionamento (Response Interruption and Redirection - RIRD): Interromper um comportamento estereotipado ou autoestimulatório e redirecionar a atenção para uma atividade funcional ou interação.
Exemplo: Se uma criança começa a balançar excessivamente, o terapeuta a interrompe gentilmente e a convida para um jogo com bolas.
Programação de Resposta (Response Prompting): Usar dicas para elicitar a resposta correta e, em seguida, remover as dicas à medida que a habilidade é dominada.
Exemplo: Para ensinar a nomear uma figura, o terapeuta inicialmente diz "cachorro", e a criança repete. Com o tempo, o terapeuta apenas mostra a figura e espera a criança nomear sozinha.
Treinamento de Habilidades de Comunicação Funcional (FCT - Functional Communication Training): Ensinar uma forma de comunicação socialmente apropriada para substituir um comportamento desafiador que tem a mesma função.
Exemplo: Ensinar a criança a usar um cartão de comunicação ou dizer "ajuda" para pedir assistência, em vez de gritar ou jogar objetos quando tem dificuldades.
Essas estratégias são frequentemente usadas em conjunto, e um bom programa ABA é sempre individualizado, adaptado às necessidades e objetivos de
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