Pesquisa de Everton Andrade na busca do entendimento do comportamento humano
Vamos desconstruir esse comportamento por partes, integrando a prática clínica com o que a ciência e a literatura nos mostram sobre essa estrutura.
## 1. O Conflito do Prazer Imediato vs. Realidade (Diabetes e Autocuidado)
O comportamento de evitar remédios, buscar apenas alimentação por prazer e fugir do médico reflete uma forte fixação no **Princípio do Prazer** em detrimento do **Princípio da Realidade** (conceitos clássicos de Sigmund Freud). O sujeito sabe o que precisa ser feito, mas o ganho secundário da negação da doença fala mais alto. Aceitar a medicação significa aceitar a vulnerabilidade e a finitude do próprio corpo — algo que o ego tenta rejeitar a todo custo.
A "preguiça intensa" descrita aqui frequentemente não é falta de energia física, mas sim uma **letargia psíquica** ligada à resistência e, possivelmente, a um quadro depressivo subjacente ou ao próprio descompasso glicêmico da diabetes, que afeta diretamente os níveis de energia e humor.
> **O que diz a literatura científica:**
> Estudos em psicologia da saúde mostram que a não adesão ao tratamento em diabéticos está intimamente ligada a barreiras psicológicas, como o *diabetes distress* (estresse específico do diabetes). Um estudo clássico de Gonzalez et al. (2008), publicado na *Diabetes Care*, demonstra que a depressão e a ansiedade estão diretamente associadas à baixa adesão à medicação e ao autocuidado, criando um ciclo onde o cansaço/preguiça impede a ação, e a falta de ação piora o quadro clínico.
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## 2. A Hipervalorização do Trabalho como Refúgio
Note uma ambivalência crucial: o sujeito evita o médico e o autocuidado, mas é altamente funcional e focado no trabalho que lhe dá prazer e valor.
Sociologicamente e psicanaliticamente, o trabalho aqui funciona como um **mecanismo de sublimação e compensação**. No ambiente profissional planejado, o indivíduo detém o controle, o reconhecimento e o sentimento de utilidade. É muito mais fácil e prazeroso investir a energia psíquica (líbido) onde se é mestre do que no consultório médico ou na academia, onde ele é confrontado com suas falhas, fragilidades e com a perda de controle.
Do ponto de vista da Administração e da Psicologia Organizacional, o trabalho atua como a principal fonte de **autoeficácia** (conceito de Albert Bandura). O problema é quando essa autoeficácia é compartimentada: "Sou excelente operando o meu trabalho, mas sou impotente operando a minha própria saúde".
## 3. Ansiedade, Timidez e o Bloqueio com a Hierarquia
A dinâmica da comunicação desse sujeito revela muito sobre sua estrutura de personalidade:
* **Comunicação planejada/com propósito:** Ele brilha. Por quê? Porque o roteiro reduz a ansiedade. O controle técnico mascara a timidez.
* **Relação com maior hierarquia:** O diálogo complica. Aqui entra o medo do julgamento, a ansiedade de desempenho e, psicanaliticamente, a projeção da **figura paterna ou da autoridade castradora**. A timidez e a indecisão crônica são sintomas dessa ansiedade social, onde o sujeito teme falhar ou não corresponder às expectativas do Grande Outro (as figuras de poder).
O paradoxo entre apresentar "autocontrole" e "ansiedade em diversas situações" mostra que esse autocontrole é, na verdade, uma **hipervigilância**. Ele gasta uma energia monumental para se manter sob controle externamente, o que gera uma exaustão interna (retroalimentando a "preguiça intensa" em casa).
> **O que diz a literatura científica:**
> Na ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental e da Psicologia Social, a dificuldade com hierarquias e a indecisão se alinham com traços de **Ansiedade Social**. Estudos de Heimberg et al. (2010) sobre fobia social e ansiedade de desempenho destacam que indivíduos com esse perfil conseguem desempenhar papéis técnicos perfeitamente se estiverem "mascarados" por um roteiro profissional, mas desmoronam na espontaneidade de interações avaliativas (como falar com chefes ou médicos), onde o risco de rejeição percebido é alto.
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## Síntese Reflexiva para a Prática
Se estivéssemos em sessão, o caminho não seria dar broncas sobre a diabetes. O foco seria:
1. **Acolher a vulnerabilidade:** Ajudá-lo a entender que ir ao médico ou tomar o remédio não é um sinal de fraqueza ou perda de autonomia, mas sim a garantia de que ele poderá continuar trabalhando (o que ele ama) por muito mais tempo.
2. **Diminuir a hipervigilância:** Investigar de onde vem a necessidade de ser perfeito no trabalho e por que o erro diante da autoridade parece tão catastrófico.
3. **Negociar o autocuidado:** Trazer a lógica do planejamento do trabalho para a saúde. Se ele funciona bem com propósitos e metas estruturadas, o cuidado com a saúde precisa ser integrado a essa rotina como um "projeto técnico", e não como uma imposição afetiva.
Mudar o comportamento exige, antes de tudo, compreender a função que esse comportamento tem na economia psíquica do sujeito.
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