Pequisa realizada por Everton Andrade, Professor e Psicanalista, com o objetivo de conhecer o comportamento humano e desenvolver aplicações assertivas na promoção da Saúde em seus atendimentos.
A saudade é uma ferramenta evolutiva de coesão social: ela nos sinaliza a importância do vínculo. No entanto, na contemporaneidade, ela é tensionada pela tecnologia, que oferece uma "falsa presença" que não supre a necessidade biológica do toque e do olhar. Cientificamente, sentir saudade é o cérebro tentando recalibrar o valor de um investimento afetivo.
Cuitelinho
Song by Paulo Vanzolini
Cheguei na beira do porto Onde as onda se espaia As garça dá meia volta E senta na beira da praia E o cuitelinho não gosta Que o botão de rosa caia, ai, ai
Quando eu vim da minha terra Despedi da parentáia Eu entrei no Mato Grosso Dei em terras paraguaia Lá tinha revolução Enfrentei fortes batáia, ai, ai
A tua saudade corta Como aço de naváia O coração fica aflito Bate uma, a outra faia Os óio se enche d'água Que até a vista se atrapáia, ai, ai
A tua saudade corta Como aço de naváia O coração fica aflito Bate uma, a outra faia Os óio se enche d'água Que até a vista se atrapáia, ai, ai
"A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo." – Mário Quintana.
Reflete a cristalização cognitiva da memória, onde o cérebro interrompe o fluxo temporal para preservar uma imagem idealizada.
"O luto é o preço que pagamos pelo amor." – Frase atribuída à Rainha Elizabeth II (ecoando o psicólogo Colin Murray Parkes).
Uma síntese da biologia do apego: a dor da saudade é proporcional à força do vínculo neuroquímico estabelecido.
"Saudade é um pouco de eternidade que ficou em nós." – Padre Fábio de Melo.
T
raduz o sentimento de "falta" lacaniana — a busca por algo que, uma vez vivido, torna-se parte constituinte da identidade do sujeito.A ciência moderna não trata a saudade como um conceito abstrato, mas como uma resposta do sistema de recompensa e do sistema de estresse.
O "Vício" Social: Estudos de neuroimagem funcional (como os de Fisher et al.) demonstram que a ausência de um objeto de apego ativa a área tegmentar ventral (VTA) e o núcleo accumbens, as mesmas regiões ligadas ao vício em substâncias. A saudade é, quimicamente, a abstinência de dopamina e oxitocina geradas pela presença do outro.
Dor Física vs. Dor Emocional: Pesquisas publicadas na PNAS indicam que a rejeição social ou a perda (fontes da saudade) ativam o córtex cingulado anterior somatossensorial. Isso explica por que a saudade "dói" no corpo; o cérebro processa a dor emocional e a dor física por vias neurais compartilhadas.
Revisões Sistemáticas sobre Luto: Meta-análises sobre o "Luto Prolongado" (agora no DSM-5-TR) mostram que a saudade persistente e incapacitante altera o eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenal), mantendo níveis elevados de cortisol e afetando o sistema imunológico.
Vivemos um paradoxo contemporâneo que a sociologia da tecnologia tem explorado intensamente.
Presença Digital vs. Ausência Física: Notícias e artigos recentes no The Lancet Digital Health discutem o fenômeno da "presença fantasma". As redes sociais permitem observar a vida de quem está ausente, o que pode impedir o fechamento cognitivo necessário para processar a saudade, mantendo o indivíduo em um estado de "vigilância melancólica".
A Solidão Pós-Pandemia: Dados da OMS e estudos de 2024 indicam um aumento global nos níveis de solidão e saudade de convívios comunitários pré-digitais, fenômeno que sociólogos chamam de "erosão do terceiro lugar" (espaços físicos de socialização).
A saudade é vista como um processamento de memória afetiva. O cérebro humano tem uma tendência ao "viés de positividade" ao lembrar do passado (declinismo retrospectivo), o que nos faz filtrar memórias negativas e amplificar a dor da perda atual. É uma falha adaptativa da memória que busca restaurar um estado de segurança anterior.
Zygmunt Bauman, em sua análise da "Modernidade Líquida", sugere que a saudade contemporânea é agravada pela fragilidade dos laços. Em sociedades tradicionais, a saudade era mediada por rituais coletivos. Hoje, a saudade é um peso individualizado; o sujeito sente saudade de uma estabilidade que a estrutura social atual não mais oferece.
Para Freud, em Luto e Melancolia, a saudade saudável é o processo de retirar a libido (energia psíquica) do objeto perdido para reinvesti-la no mundo. A saudade torna-se patológica quando o ego se identifica com a perda. Já na visão lacaniana, a saudade pode ser entendida como o encontro com a falta constitutiva do ser; desejamos não apenas a pessoa, mas o estado de plenitude que imaginamos ter tido ao lado dela.
A saudade é uma ferramenta evolutiva de coesão social: ela nos sinaliza a importância do vínculo.
No entanto, na contemporaneidade, ela é tensionada pela tecnologia, que oferece uma "falsa presença" que não supre a necessidade biológica do toque e do olhar.
Cientificamente, sentir saudade é o cérebro tentando recalibrar o valor de um investimento afetivo.
Referências para os estudos e conceitos mencionados:
1. Neurobiologia e Sistemas de Recompensa
Fisher, H. E., et al. (2010). Reward, Addiction, and Emotion Regulation Systems Associated with Rejection in Love. Journal of Neurophysiology.
Kross, E., et al. (2011). Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).
2. Manuais Diagnósticos e Revisões de Saúde Mental
DSM-5-TR (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th Edition, Text Revision). Seção sobre Prolonged Grief Disorder (Transtorno do Luto Prolongado).
The Lancet Digital Health (2023/2024). Artigos sobre o impacto das redes sociais na saúde mental e luto.
3. Perspectivas Sociológicas e Psicanalíticas
Bauman, Zygmunt. (2004). Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. (Obra fundamental da sociologia contemporânea).
Freud, Sigmund. (1917 [1915]). Luto e Melancolia.
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