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Comportamento Militar

Pesquisa realizada por Everton Andrade, Professor e Psicanalista, com o objetivo de conhecer o comportamento humano e desenvolver aplicações assertivas na promoção da Saúde em seus atendimentos.




Abaixo, apresento uma análise interdisciplinar sobre o comportamento humano na cultura militar, das bases de aprendizagem ao front de combate.









1. Análise Etimológica e Conceitual

Para compreender o fenômeno, devemos olhar para a raiz dos termos que sustentam essa estrutura:

  • Militar: Do latim militaris, derivado de miles ("soldado"). Originalmente ligado à ideia de "mil", referente à divisão de tribos romanas que forneciam mil homens para o exército.

  • Disciplina: Do latim disciplina, que significa "instrução, conhecimento". Curiosamente, compartilha a mesma raiz de "discípulo" (discipulus), aquele que aprende. No contexto militar, a disciplina é a internalização de normas para a sobrevivência do grupo.

  • Doutrina: Do latim doctrina, de docere ("ensinar"). É o corpo de princípios que orienta a ação.

  • Estratégia: Do grego strategia (stratos "exército" + agein "conduzir"). O foco é o comando em larga escala, enquanto a Tática (taktika) refere-se ao "arranjo" imediato das peças no campo.










2. Análise Histórica: Evolução do Comportamento Combatente

A cultura militar evoluiu de confrontos individuais para sistemas altamente burocratizados e tecnológicos:

  • Antiguidade (Falange Macedônica/Legião Romana): O foco era a desindividualização. O soldado era uma peça de uma máquina geométrica. A introdução da disciplina rígida permitiu que grupos menores vencessem hordas desorganizadas.

  • Século XVIII (Modelo Prussiano - Frederico, o Grande): O nascimento do "soldado-autômato". O treinamento era baseado na repetição mecânica até que a resposta ao comando fosse mais rápida que o medo.

  • Guerras Mundiais (Século XX): A transição para a "Guerra Total". Aqui, a psicologia militar emerge como ciência para tratar o "choque de granada" (shell shock) e otimizar a propaganda.

  • Contemporaneidade: Foco em Operações Especiais e Guerra Híbrida. A aprendizagem agora exige alta flexibilidade cognitiva e autonomia de decisão em pequenos grupos.









3. Resumo de Evidências: Aprendizagem e Combate

A ciência moderna, através da neurociência e da psicologia experimental, revela como o treinamento militar altera o cérebro:

  • Condicionamento Operante: O treinamento de tiro moderno (pós-Coreia) utiliza alvos realistas em forma humana que "caem" ao serem atingidos. Isso substituiu o tiro em alvos de papel circulares, elevando a taxa de engajamento de 20% na 2ª Guerra para mais de 90% no Vietnã e conflitos atuais (Marshall, S.L.A., "Men Against Fire").

  • Memória Muscular e Neuroplasticidade: A repetição exaustiva (drill) visa transferir as competências da memória declarativa para a memória procedimental (gânglios da base). Em situações de alto estresse, o córtex pré-frontal (racional) "desliga"; o treinamento garante que o comportamento de sobrevivência seja automático.

  • Resiliência e o Eixo HPA: Estudos com forças de elite (como os Navy SEALs) mostram uma regulação diferenciada do cortisol e da noradrenalina, permitindo que o indivíduo mantenha o foco sob ameaça de morte.






















4. Análise Humana e Social: Pontes Interdisciplinares

A. Psicologia: A Identidade do Soldado

O processo de "recrutamento e formação" é uma desconstrução do ego. Ao raspar o cabelo, usar uniforme e perder o nome (substituído por um número ou nome de guerra), o indivíduo passa por uma "morte simbólica" para renascer como parte de um coletivo. A psicologia chama isso de conformidade social aguda.

B. Sociologia: O Microcosmo Militar

Para a sociologia, o exército é uma "Instituição Total" (Erving Goffman). É um lugar onde todas as esferas da vida (dormir, comer, trabalhar) ocorrem no mesmo local, sob a mesma autoridade. Isso gera uma coesão de grupo chamada Esprit de Corps, onde a lealdade ao "camarada ao lado" supera a ideologia política.

C. Psicanálise: Pulsão de Morte e a Figura do Pai

Sob a ótica psicanalítica, a cultura militar lida diretamente com a Pulsão de Morte (Thanatos). O exército oferece uma estrutura rígida que canaliza a agressividade inerente ao ser humano para fins socialmente aceitos (defesa do Estado). O comandante frequentemente ocupa o lugar do "Pai Simbólico" no Ideal do Eu do soldado, provendo segurança em troca de obediência absoluta.














5. Contexto Atual: O Desafio da Saúde Mental

Dados recentes do Department of Veterans Affairs (EUA) e estudos da Lancet Psychiatry (2023) apontam uma mudança de paradigma: o foco atual não é apenas a eficácia no combate, mas o Dano Moral.


O Dano Moral ocorre quando um soldado é forçado a agir contra seus valores éticos profundos, gerando traumas que a psicologia tradicional de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) não explicava totalmente.



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A cultura militar é a maior experiência de engenharia social e psicológica da história humana. 

Ela demonstra a extraordinária plasticidade do comportamento: indivíduos pacíficos podem ser transformados em combatentes letais através de técnicas de aprendizagem que ignoram o racional e focam no instintivo e no coletivo.

Contudo, o desafio contemporâneo é o "retorno". 

Se o treinamento militar é uma ciência exata de desconstrução do civil, a sociedade ainda carece de uma ciência igualmente robusta para a reconstrução do indivíduo após o serviço, evidenciando o abismo entre a eficácia tática e a saúde psíquica a longo prazo.

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Apresentação e referências abaixo:











 links para as bases de dados oficiais, DOIs ou registros em bibliotecas de alto impacto onde podem ser consultados.


1. Referências Clínicas e Médicas (Trauma e Shell Shock)

2. Referências de Psicologia e Comportamento Militar

3. Referências de Guerra Psicológica e Propaganda

4. Referências de Instituições de Alto Impacto (Nature/Science)

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