O Que É Consciência?
O Segredo por Trás de Cada Escolha: O Papel Central da Consciência
A jornada para entender o comportamento humano é, fundamentalmente, uma jornada para desvendar a consciência. O que nos torna nós? Por que escolhemos um caminho e não outro? A resposta reside naquele misterioso estado de ciência (awareness) que se acende em nós a cada manhã, permitindo-nos não apenas existir, mas perceber, sentir e refletir.
Neste espaço, mergulhamos no coração da mente: a Consciência. Ela não é apenas um conceito filosófico abstrato; é a base neurológica que define nossa capacidade de estar alerta (Nível de Consciência) e de interpretar o mundo à nossa volta (Conteúdo de Consciência). É ela quem nos oferece o palco para as emoções, as memórias e o planejamento futuro.
Meu nome é Everton Andrade, sou Professor e estudo o comportamento humano.
Quando falamos em comportamento, estamos falando da manifestação externa dessa vida interior consciente. Desde a simples decisão de tomar um café até a complexa construção da nossa identidade e moral, tudo passa pela arquitetura da consciência. Ela é o filtro subjetivo que transforma dados brutos do universo em uma experiência pessoal e única.
Aqui, vamos explorar as fronteiras entre o que sentimos, o que pensamos e como agimos, utilizando as fascinantes descobertas da neurologia e da psicologia para iluminar o segredo por trás de cada uma de nossas escolhas. Prepare-se para desvendar o que realmente significa "estar ciente" e como isso molda, a cada instante, o seu caminho no mundo.
PRINCIPAIS PONTOS DESTA PUBLICAÇÃO:
1. Definição Geral e Natureza da Consciência
Essência Subjetiva: Consciência é o estado subjetivo de awareness (ciência) e sentience (sensibilidade), sendo a experiência que cada indivíduo tem de si e do mundo (o "como é sentir").
Intencionalidade: Filosoficamente, toda consciência é sempre direcionada a um objeto; o ato de pensar ou perceber é sempre sobre alguma coisa.
Problema Difícil: A consciência levanta a questão de como as experiências subjetivas (qualia) emergem da atividade puramente física do cérebro.
2. A Visão Neurológica (Dualidade)
Dois Componentes: A neurologia define a consciência pela interação de dois elementos cruciais e dissociáveis: o Nível de Consciência (Vigília) e o Conteúdo da Consciência (Clareza).
Nível (Vigília): Refere-se ao grau de alerta (o quão acordado o indivíduo está), sendo mantido principalmente pelo Sistema Reticular Ativador Ascendente (SRAA) no tronco encefálico.
Conteúdo (Clareza): Refere-se à soma das funções cognitivas (percepção, raciocínio, memória) e é mediado principalmente pelo Córtex Cerebral e pelo Tálamo.
3. Tipos e Dimensões
Fenomenal vs. Acesso: Existe a distinção entre a consciência Fenomenal (a experiência subjetiva bruta) e a consciência de Acesso (a informação disponível para raciocínio e relato).
Central vs. Ampliada (Damásio): A consciência Central é a consciência do aqui-e-agora, enquanto a consciência Ampliada inclui o senso de identidade e história pessoal baseado na memória biográfica, permitindo o planejamento futuro.
Correlato Neural (CNC): O objetivo da neurociência é identificar o conjunto mínimo de atividade neuronal (o CNC) necessário para que uma experiência consciente específica ocorra.
A consciência pode ser definida como:
Capacidade de Conhecer e Reconhecer: É a faculdade de reconhecer um ato ou estado no momento em que ele ocorre, seja em relação a si mesmo ou ao mundo externo. Ser consciente de algo implica ter um conhecimento sobre aquilo.
Estado Subjetivo de Ciência (Awareness) e Sensibilidade (Sentience): É o conjunto de experiências subjetivas que se iniciam quando acordamos, englobando percepções, sensações, pensamentos, memórias, emoções, e a noção de que "existe algo que é ser como esse organismo" (o caráter subjetivo da experiência).
Qualidade da Mente: Abrange a subjetividade, a autoconsciência e a capacidade de perceber a relação entre o "eu" e o "outro".
Fluxo do Pensamento: O filósofo William James a descreveu como um "fluxo" metafórico de conteúdos mentais unificados, que não aparece dividido em pedaços, mas que está em constante movimento.
É o que possibilita a percepção do mundo exterior, do mundo psíquico interior e de suas inter-relações, sendo a base para a nossa individualidade e identidade.
Principais Definições e Perspectivas
As principais abordagens para a consciência variam de acordo com o campo de estudo:
1. Perspectiva Filosófica
Conhecimento Reflexivo (Descartes): Consciência como o espaço interno do cogito (res cogitans), onde as representações do mundo externo aparecem. Ser consciente é apreender-se a si próprio de modo imediato e privilegiado.
Intencionalidade (Brentano/Husserl): "Toda consciência é consciência de alguma coisa." A consciência é sempre dirigida a um objeto (o ato de perceber, pensar, etc., é sempre sobre algo).
O "Problema Difícil" (David Chalmers): A consciência levanta o "problema difícil" de explicar por que e como as experiências subjetivas (qualia) surgem a partir do processamento físico do cérebro.
2. Perspectiva Psicológica e Neurocientífica
Função Integradora: A consciência é vista como a atividade que integra diversos fenômenos psíquicos, possibilitando tomar ciência da realidade naquele instante (a "área de trabalho global" do cérebro).
Processo Evolutivo: É vista como um fruto da evolução do sistema nervoso, que confere vantagens adaptativas, como a capacidade de ir além da situação atual, refletir sobre o passado e planejar o futuro.
Estado de Vigília e Conteúdo: Os cientistas costumam dividir o estudo da consciência em dois aspectos:
Estado de Consciência: O grau de alerta (vigilância, clareza), que varia de sono profundo ao estado de hipervigília.
Conteúdo Consciente: As informações específicas das quais se está ciente em um determinado momento (o que se vê, pensa, sente).
Tipos e Dimensões da Consciência
Muitas classificações são propostas para organizar os diferentes aspectos do fenômeno. Duas divisões são frequentemente mencionadas:
A. Consciência Fenomenal vs. Consciência de Acesso (Filosofia da Mente)
Consciência Fenomenal (P-Consciousness):
É a experiência propriamente dita. É o estado de "estar ciente" e é o cerne do caráter subjetivo.
É a experiência crua, o "como é sentir" o cheiro de café, a dor de dente ou a cor vermelha. Está ligada aos qualia.
Consciência de Acesso (A-Consciousness):
É o processamento das informações que vivenciamos.
Refere-se a quando a informação está disponível para raciocínio, relato verbal e controle da ação (ex: o conhecimento de que o café está quente e a decisão de soprar antes de beber).
B. Consciência Central vs. Consciência Ampliada (Neurociência – António Damásio)
Consciência Central (ou Primária):
O sentimento de si mesmo (o self) envolvido no processo de tomar conhecimento da própria existência e da existência de outro.
Não se refere à linguagem ou à memória de longo prazo; é a consciência do aqui-e-agora da experiência.
Consciência Ampliada (ou Secundária/Reflexiva):
Vai além do aqui-e-agora e inclui o senso de individualidade e identidade com base na memória biográfica, na capacidade de teorizar e de fazer inferências.
É o que permite que se tenha uma história pessoal e planeje o futuro, sendo o alicerce da autoconsciência complexa.
A neurologia define a consciência de forma mais prática e dual, dividindo-a em dois componentes essenciais, que dependem de estruturas cerebrais específicas:
A consciência, na perspectiva neurológica e clínica, é o estado de pleno conhecimento e percepção de si próprio e do ambiente, constituindo-se pela interação de dois elementos fundamentais: o Nível e o Conteúdo.
1. Componentes Essenciais da Consciência
Nível de Consciência (Vigília / Arousal)
Este é o aspecto quantitativo da consciência e se refere ao grau de alerta ou vigilância do indivíduo.
Definição: A capacidade de estar acordado e manter um estado de alerta. É a premissa fundamental para a clareza da consciência.
Variação: Oscila entre o máximo estado de alerta (vigília plena) e a completa inconsciência (coma).
Conteúdo da Consciência (Clareza / Awareness)
Este é o aspecto qualitativo da consciência e se refere à soma das funções cognitivas e mentais.
Definição: É a capacidade de interpretar, comunicar, interagir e entender o que está acontecendo no ambiente. Envolve atenção seletiva, orientação (têmporo-espacial), memória e raciocínio.
Manifestação: É o que nos permite ter uma percepção consciente, crítica e coerente de nós mesmos (autoconsciência) e do mundo.
2. Substrato Neural da Consciência
A manutenção e o conteúdo da consciência dependem de uma rede de estruturas interligadas no Sistema Nervoso Central (SNC):
| Componente da Consciência | Estrutura Neural Principal | Função |
| Nível / Vigília | Sistema Reticular Ativador Ascendente (SRAA) | É uma rede de núcleos e fibras localizadas no tronco encefálico (ponte e mesencéfalo), com projeções difusas para o tálamo e o córtex, cuja principal função é manter o estado de alerta e o despertar. |
| Conteúdo / Clareza | Córtex Cerebral e Tálamo | O Córtex Cerebral é o responsável pelo processamento da informação e das funções cognitivas complexas. O Tálamo atua como um centro de retransmissão e integração, essencial para a comunicação entre o SRAA e as áreas corticais. |
Correlatos Neurais da Consciência (CNC)
Em pesquisas mais aprofundadas em neurociência, busca-se o Correlato Neural da Consciência (CNC), que é o conjunto mínimo de eventos neuronais e mecanismos suficientes no cérebro para gerar uma experiência consciente específica. Não se trata de uma única área, mas sim da atividade coordenada de redes complexas, frequentemente envolvendo a atividade sustentada e bem organizada no sistema talamocortical e as conexões de longo alcance.
3. Avaliação Clínica (Tipos de Nível de Consciência)
Na prática clínica, especialmente em emergências, o Nível de Consciência é avaliado e classificado em graus, sendo a Escala de Coma de Glasgow (ECG) a ferramenta mais comum.
| Grau de Consciência | Característica |
| Vigil (Consciência Plena) | Alerta, acordado, orientado e respondendo a estímulos espontaneamente. |
| Sonolência | O paciente tende a adormecer se não for estimulado, mas acorda e responde a comandos verbais simples. |
| Letargia/Obnubilação | Menos alerta, pode estar confuso. Precisa de estímulos verbais mais fortes ou repetidos para acordar. |
| Torpor | O paciente só responde a estímulos vigorosos e repetidos (dolorosos), e as respostas são limitadas (gemidos, movimentos básicos). |
| Coma | Inconsciência completa, não responde a estímulos, nem mesmo à dor. Não há abertura ocular nem respostas verbais. (Coma de Glasgow = 3). |

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