O contexto sociocultural do final do século XIX, inserido no período mais amplo da Modernidade, teve uma influência fundamental no surgimento da psicanálise, moldando tanto as questões clínicas que Sigmund Freud encontrou quanto o arcabouço intelectual que ele utilizou e subverteu.
A psicanálise surgiu no final do século XIX e se desenvolveu a partir da visão de mundo da Modernidade, onde o ser humano é visto como um indivíduo único e, ao mesmo tempo, fruto de seu meio social.
Olá meu nome é Everton Andrade, sou professor e psicanálista.
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As principais influências socioculturais do século XIX que moldaram o surgimento da psicanálise incluem:
1. A Consolidação da Ciência e a Crise da Razão
A Idade Contemporânea (que se inicia em 1789) é caracterizada pela valorização da razão em detrimento da religiosidade e pela consolidação do regime capitalista. A Modernidade marcou a ruptura com a tradição medieval, estabelecendo a autonomia da razão. O conceito de Ciência era muito importante, e a psicanálise se desenvolveu a partir de bases e procedimentos científicos, embora Freud tenha subvertido o paradigma neopositivista da ciência.
Neste contexto, o século XIX foi marcado pela influência de três pensadores centrais, incluindo Freud, juntamente com Karl Marx e Charles Darwin. Darwin, com sua teoria da evolução das espécies e seleção natural, colocou em xeque a justificação religiosa da existência de Adão e Eva.
Apesar da valorização da racionalidade, o surgimento do conceito de inconsciente proposto por Freud demonstrou que a racionalidade não é suficiente para explicar o comportamento humano.
2. O Desafio do Inconsciente e a Crítica ao Sujeito Cartesiano
Freud propôs o inconsciente como um conceito fundamental para o edifício teórico e técnico da psicanálise, revelando que a maior parte da vida psíquica é inconsciente e regida pela força das pulsões e paixões. Essa ideia estava em oposição direta à valorização da consciência e da razão, tal como inaugurada pelo filósofo René Descartes (com a afirmação "penso, logo existo").
A psicanálise subverteu a concepção clássica do sujeito do conhecimento ao:
- Afirmar que o inconsciente produzia pensamentos, desalojando a consciência como sede privilegiada do ato de pensar.
- Promover a ruptura ao considerar que o ser e o pensar não se situavam no mesmo lugar.
Ao constatar a existência do inconsciente, Freud mostrou que o ser humano havia deixado de ser consciente dos próprios atos, pois um "outro eu," inconsciente, determinava muitas ações humanas.
3. As Transformações Sociais, Econômicas e o Individualismo
O contexto da Modernidade, associado ao desenvolvimento do modo de produção capitalista, estabeleceu o conceito de cidadão, no qual todos deveriam ser iguais perante as leis, em contraste com o período feudal.
Foi também na Modernidade que surgiu o conceito de indivíduo (ser humano considerado isoladamente na coletividade), fundamental para a psicanálise, pois está diretamente relacionado ao conceito de "eu" e à individualidade. A formulação de teorias que explicassem a personalidade e as maneiras de resolver problemas encontrados durante o desenvolvimento individual tornaram-se necessárias.
A estrutura familiar nuclear (pai, mãe e filhos vivendo sob o mesmo teto), tipicamente defendida pela Igreja Católica, é característica da Modernidade e influenciou o modo como a psicanálise passou a compreender o ser humano e suas relações sociais, desde a idade mais remota.
4. A Abordagem Clínica da Histeria
A medicina do século XIX estava focada em explicações físico-químicas ou patológico-anatômicas, sendo impotente para encontrar a cura para as "doenças nervosas funcionais" (como a histeria), pois não se preocupava com fatores psíquicos.
Freud, um médico neurologista, começou sua clínica tratando pacientes com histeria, sob a orientação de Jean-Martin Charcot, que usava a hipnose. A histeria era um transtorno psicológico cercado de tabus, historicamente atribuído apenas às mulheres.
A grande influência do contexto clínico foi a percepção de Freud de que a causa da histeria era psicológica e não orgânica. Ele elaborou a hipótese de que os problemas se originavam na não aceitação cultural ou em desejos reprimidos, frequentemente de natureza sexual. Essa abordagem da sexualidade reprimida chocou-se com as ideias da comunidade médica de então, que considerava a histeria uma doença degenerativa (causada, por exemplo, pela sífilis).
Assim, a psicanálise surgiu como um método para a
compreensão e análise do homem,
propondo um sistema teórico sobre o comportamento humano e um tratamento voltado para problemas psicológicos que não encontravam suporte biológico para sua cura. Ela propôs a compreensão das relações estabelecidas entre os seres humanos para que pudessem desenvolver suas potencialidades com o menor sofrimento possível, sendo o desenvolvimento humano sempre socioemocional.
A Gênese da Psicanálise: Inconsciente, Histeria e Trauma
1. O Inconsciente Já Existia, Mas Freud o Reinventou Radicalmente
Pode parecer chocante, mas Sigmund Freud não "inventou" o conceito de inconsciente. O termo já circulava entre escritores e pesquisadores muito antes de ele se tornar uma figura proeminente. A grande questão não é quem usou a palavra primeiro, mas quem a transformou em uma força revolucionária para entender a mente humana.
Antes de Freud, a noção de inconsciente era muito mais ampla e impessoal, ligada a uma força da natureza ou do universo. Essa "região subterrânea que nos habita" seria batizada pelos românticos de inconsciente, uma força cósmica que operava à margem da consciência, mas com pouca influência direta na vida pessoal. Era um conceito filosófico, e não uma ferramenta clínica.
A revolução de Freud foi "privatizar" o inconsciente. Ele o retirou do cosmos e o instalou dentro de cada indivíduo, transformando-o em um território pessoal, dinâmico e turbulento. O inconsciente freudiano tornou-se um reservatório de desejos reprimidos, pulsões e paixões — uma força poderosa que molda nossos pensamentos e comportamentos sem que percebamos. Essa ideia foi um choque para a ciência da época, dominada pelo Positivismo — o movimento que consagrava a razão e a materialidade como os únicos caminhos para o conhecimento.
“Sua simples menção já suscita certo incômodo, contrariando uma ciência que se respalda em princípios como os de ‘razão’, ‘controle’ e ‘materialidade’ [...], abrindo-se brechas muito interessantes para a exploração de conteúdos que passariam abaixo da superfície dos domínios da ortodoxia científica” (XAVIER, 2010, p. 54).
2. Uma "Doença de Mulher" Foi o Berço da Psicanálise
A psicanálise nasceu do estudo de um transtorno misterioso e estigmatizado: a histeria. Na época de Freud, essa era considerada uma "doença de mulher", uma crença tão antiga que o próprio nome deriva da palavra grega hysteros, que significa útero. Os sintomas eram variados e desconcertantes — paralisias, cegueira, tosses nervosas — sem nenhuma causa física aparente.
Durante séculos, as mulheres que sofriam de histeria foram tratadas com crueldade. Acreditava-se que elas estavam "presas de maus espíritos", sendo submetidas a exorcismos e torturas. A medicina da época também não oferecia respostas, tratando a condição como um problema degenerativo.
Foi ao trabalhar com pacientes histéricas, sob a orientação de Jean-Martin Charcot, que Freud começou a formular uma hipótese que mudaria tudo. Em parceria com seu colega Josef Breuer, com quem publicou “Estudos sobre a histeria” em 1895, Freud propôs que a causa da doença não era orgânica, mas sim psicológica. Os sintomas físicos eram a manifestação de desejos reprimidos e fantasias, muitas vezes de natureza sexual. Ao levar a sério o sofrimento psíquico por trás dos sintomas corporais, Freud não apenas deu dignidade às suas pacientes, mas abriu um campo inteiramente novo para a compreensão da mente humana.
3. A Fantasia Tornou-se Mais Real que a Realidade
Um dos momentos mais surpreendentes na evolução do pensamento de Freud foi sua mudança radical sobre a natureza do trauma. No início, ele acreditava que os sintomas de suas pacientes eram causados por traumas reais, como eventos de sedução sexual na infância. A terapia, portanto, consistia em desenterrar essas memórias factuais.
Com o tempo, ele percebeu que muitos desses relatos não eram fatos, mas sim fantasias. E sua teoria sobre o trauma se expandiu, incorporando outras experiências fundamentais como o trauma do nascimento, o impacto da cena primária e a angústia da castração. Em vez de descartar os relatos como "falsos", ele passou a se interessar profundamente pelo significado psíquico dessas fantasias.
O impacto dessa mudança foi imenso. A "realidade psíquica" tornou-se o foco da análise. Para Freud, a fantasia funciona como uma "realização de um desejo", operando em uma lógica própria, onde "passado, presente e futuro" se enlaçam, tendo o desejo como fio condutor. O mundo interno tornou-se tão, ou mais, importante que os acontecimentos externos para entender o sofrimento. Para a psicanálise, não importava apenas o que aconteceu, mas como aquilo foi vivido, interpretado e fantasiado pelo indivíduo.
4. A Psicanálise Nasceu Como uma Afronta à Era da Razão
Para entender o quão radical foi a teoria de Freud, é preciso olhar para o tempo em que ele viveu. A psicanálise surgiu no auge da "Modernidade", uma era que valorizava a razão acima de tudo, simbolizada pela famosa frase de René Descartes: "penso, logo existo". Acreditava-se que o ser humano era, essencialmente, um ser racional, e que a consciência era o centro de comando da mente.
A teoria de Freud chegou para dinamitar essa visão. Ao afirmar que o inconsciente produzia pensamentos, ele "desalojou a consciência como sede privilegiada do ato de pensar". A maior parte de nossa vida mental ocorria em um lugar inacessível à razão, regida por forças que não podíamos controlar.
"Para Freud, a maior parte da vida psíquica é inconsciente, não dominada pela razão, mas regida pela força das pulsões e das paixões."
Essa ideia representou uma ferida profunda na vaidade humana. Primeiro, a revolução de Copérnico mostrou que o homem não era o centro do universo. Depois, Darwin mostrou que ele não era uma criação divina à parte dos outros animais. Freud aplicou o terceiro golpe: com a descoberta do inconsciente, o homem "deixou de ser consciente dos próprios atos". Havia um "outro eu" determinando muitas de suas ações. A psicanálise nasceu, portanto, como a exploração corajosa de tudo aquilo que a razão não conseguia dominar.
5. O Fracasso da Hipnose Foi o Grande Sucesso da Terapia
O maior sucesso de Freud não veio de aperfeiçoar uma técnica, mas de entender por que sua primeira tentativa fracassou espetacularmente. No início de sua carreira, ele usava a hipnose. O objetivo era simples: alcançar o que ele e seu colega Josef Breuer chamavam de "ab-reação", um processo catártico para liberar a "emoção estrangulada" ao fazer o paciente verbalizar um trauma esquecido.
Contudo, Freud logo percebeu que os resultados não eram duradouros e, mais importante, encontrou um obstáculo intransponível: a "resistência". Mesmo sob hipnose, uma força poderosa impedia o acesso às ideias e memórias mais dolorosas. Esse aparente fracasso foi sua maior descoberta. A resistência revelou a existência de um mecanismo ativo de defesa, que ele chamaria de "recalque" (repressão).
Foi aqui que ocorreu a reviravolta decisiva — e sua ruptura com Breuer. Freud insistia que o conteúdo reprimido por trás da resistência era quase sempre de natureza sexual, uma ideia que levou a "divergências teóricas" com seu colega. Ao abandonar a hipnose para estudar essa força repressora, Freud foi obrigado a criar sua própria técnica. Assim nasceu a "associação livre", o método que se tornou a ferramenta central da psicanálise para explorar o vasto e complexo mundo do inconsciente.
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Quem Está no Comando?
Como vimos, a história da psicanálise é muito mais rica, complexa e cheia de reviravoltas do que os estereótipos populares sugerem. Ela nasceu de doenças incompreendidas, de fracassos transformados em descobertas e de uma corajosa disposição para desafiar as verdades mais estabelecidas da ciência e da filosofia.
A jornada de Freud nos mostra que entender a nós mesmos é um trabalho de escavação arqueológica na nossa própria mente.
Se não somos totalmente senhores de nossa própria casa,
a pergunta que fica é:
quem realmente está no comando?
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