Verdades Surpreendentes Sobre Por Que Ficamos "Fisgados"
Você já se sentiu "fisgado"? Seja pela rolagem infinita nas redes sociais, por uma promoção de compras online ou por um novo episódio da sua série favorita, a sensação de não conseguir parar é cada vez mais comum. Em um mundo pós-pandemia, parece que muitos de nós desenvolvemos novos hábitos compulsivos, e como aponta a observação geral, "os vícios parecem ter piorado após a pandemia".
Muitas vezes, atribuímos essa dificuldade à falta de "força de vontade". No entanto, a verdadeira história por trás do vício é muito mais surpreendente e está profundamente enraizada na forma como nosso cérebro é programado para buscar recompensas. Este artigo vai além do senso comum para revelar cinco verdades contraintuitivas da ciência que explicam por que ficamos viciados.
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IMAGEM: QUAL É O SEU TIPO DE DEPENDÊNCIA?
1. Há uma razão para as indústrias de tecnologia e de drogas chamarem você de "usuário" Pense nesta provocação feita por Edward Tufte, professor da Universidade Yale e especialista em design de informação:
“Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários, a de drogas e a de softwares”.
Essa escolha de palavras não é uma coincidência. Ela revela uma filosofia de design focada em criar engajamento máximo e comportamento repetitivo. Tanto um aplicativo projetado com rolagem infinita e recompensas variáveis quanto uma substância que altera a química cerebral compartilham um objetivo fundamental: garantir que você volte para mais. A linguagem, neste caso, expõe a mecânica subjacente de criar hábitos que, por meio de princípios de design de experiência (UX) cuidadosamente elaborados para gerar compulsão, podem nos "fisgar".
2. O cérebro não diferencia um vício "químico" de um "comportamental"
Quando pensamos em vício, imagens de álcool ou tabaco geralmente vêm à mente. Essas são as dependências químicas. No entanto, existe outra categoria igualmente poderosa: as dependências comportamentais. A lista é vasta e crescente, incluindo:
• Dependência tecnológica (internet, redes sociais, games)
• Compras compulsivas (oniomania)
• Vício em trabalho (workaholism)
• Exercício físico compulsivo
• Transtornos alimentares
A descoberta mais fascinante da neurociência moderna é que, para o cérebro, a distinção é quase irrelevante. As dependências comportamentais "ativam os mesmos circuitos de recompensa no cérebro que as drogas". Pesquisas mostram que uma molécula chamada ΔFosB é um precursor crítico para ambos os tipos de vício. Pense no ΔFosB como um "interruptor molecular" mestre no cérebro. O uso repetido de uma droga ou a repetição de um comportamento viciante liga esse interruptor, que então reconfigura os circuitos neurais, tornando o cérebro mais suscetível à compulsão no futuro.
Se o cérebro não diferencia o gatilho, é porque a recompensa neuroquímica que ele busca é fundamentalmente a mesma. E essa recompensa tem um nome: dopamina, o que nos leva à nossa terceira verdade.
3. Para o seu cérebro, uma "curtida" ativa os mesmos circuitos de recompensa que uma droga
Nosso cérebro possui um sistema de recompensa movido por um neurotransmissor chamado dopamina. Sempre que vivenciamos algo prazeroso — seja comer um chocolate ou receber uma notificação — nosso cérebro libera dopamina, gerando uma sensação de bem-estar que nos motiva a repetir o comportamento.
As tecnologias modernas aprenderam a manipular esse sistema com uma precisão impressionante. Cada curtida, comentário ou notificação é uma pequena e imprevisível dose de prazer. O princípio é o mesmo dos jogos de azar, onde a regra é clara: "Quanto menor o intervalo entre a aposta e o resultado, mais viciante!". Não é à toa que a "máquina caça-níquel é o crack dos jogos de azar". O seu smartphone funciona de forma parecida.
O psiquiatra Antônio Egídio Nardi resume o poder desse mecanismo:
“A sensação de ganhar uma curtida na rede social é tão boa que leva o indivíduo a querer mais. Daí que ganhar likes pode ser tão viciante quanto consumir drogas”.
Esse sistema de dopamina é o motor por trás do desejo intenso, o que nos leva a um dos paradoxos mais cruéis da dependência.
4. O vício é quando você continua "querendo", mesmo depois de parar de "gostar"
Aqui está um dos paradoxos mais cruéis e reveladores da dependência. Proposta por pesquisadores como Kent Berridge e Terry Robinson, a "Teoria da Sensibilização do Incentivo" propõe uma separação fundamental entre dois processos cerebrais: o "querer" e o "gostar".
• "Gostar" (Liking): Refere-se ao prazer real que a substância ou o comportamento proporciona. Com o tempo, a tolerância se instala, e o "gostar" diminui.
• "Querer" (Wanting): Refere-se ao desejo intenso, à fissura ou à compulsão. No cérebro viciado, esse sistema se torna hipersensível. A droga ou o comportamento adquire uma "saliência" desproporcional, ou seja, o cérebro passa a tratá-lo como a coisa mais importante do mundo para a sobrevivência, ofuscando todas as outras necessidades e desejos.
É aqui que o "anzol" se fixa de vez: o vício se instala quando o "querer" se desconecta do "gostar". A pessoa continua a buscar compulsivamente o hábito, não porque ainda lhe traga alegria, mas porque seu cérebro foi treinado para um desejo patológico. A Classificação Internacional de Doenças (CID-11), ao descrever o Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo, captura perfeitamente essa dinâmica, observando que a pessoa "continua a se envolver em comportamento sexual repetitivo, mesmo quando o indivíduo obtém pouca ou nenhuma satisfação com isso."
5. A dependência é uma "doença da escolha", mas não como você imagina
Ver o vício como uma simples falha de força de vontade é impreciso. Teorias modernas, como a "Teoria Comportamental da Dependência como Escolha", proposta por Gene Heyman, reformulam o problema. Elas não sugerem que a pessoa "escolhe" ser viciada, mas sim que a dependência é uma patologia do próprio processo de tomada de decisão.
Funciona assim: o consumo repetido da droga ou a prática do comportamento viciante progressivamente diminui o valor de recompensa de todas as outras atividades concorrentes. Família, trabalho e saúde perdem o brilho. O cérebro do dependente, seguindo uma lógica de recompensa imediata, passa a escolher consistentemente a única coisa que ainda lhe parece valiosa. Isso reforça a ideia de que a dependência não é um estado predeterminado, mas sim uma interação complexa, como aponta a literatura científica: "beber álcool é um conjunto de comportamentos aprendidos, instrumentais. Isso sugere que o que é herdado são os fatores que influenciam a decisão de beber, não o beber por si mesmo."
Não se trata de uma escolha moral fraca, mas de um sistema de decisão neurológico que foi sistematicamente desregulado. O psiquiatra Táki Cordás sintetiza o resultado final:
“Toda e qualquer dependência representa uma perda da liberdade de escolha”.
Essa visão científica ajuda a remover o estigma e a compreender o comportamento como uma consequência previsível de um processo neurobiológico.
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Conclusão: Entender é o Primeiro Passo para o Controle
Olhar para o vício através de uma lente científica é profundamente libertador. Em vez de vê-lo como uma falha moral, passamos a entendê-lo como um processo previsível em que os circuitos de recompensa e escolha do nosso cérebro são sequestrados. Seja o gatilho uma substância química, uma máquina caça-níqueis ou a tela de um smartphone, os mecanismos neurológicos subjacentes são notavelmente semelhantes.
Se as indústrias de software e de drogas nos chamam de "usuários", entender a ciência de como nosso cérebro é "usado" é o primeiro passo para reivindicar nossa autonomia.
Agora que você entende como o cérebro fica "fisgado", que hábito aparentemente inofensivo em sua vida você passará a enxergar de forma diferente?
Comportamento de Dependência Humana: Conceitos Fundamentais
O Comportamento de Dependência Humana refere-se a um padrão desadaptativo e persistente de uso de uma substância ou de envolvimento em uma atividade que leva a um prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo.
Definições Chave
Dependência: Um estado fisiológico e/ou psicológico resultante da interação entre um organismo e uma substância (ou comportamento), caracterizado por uma resposta comportamental e outras que sempre incluem a compulsão para consumir a substância ou repetir o comportamento de forma contínua ou periódica, a fim de experimentar seus efeitos psicoativos (prazer) e, às vezes, para evitar os desconfortos da abstinência.
Termo Clínico Atual: Na psiquiatria e psicologia, o termo Transtorno por Uso de Substância (TUS) é frequentemente usado para dependências químicas. Para dependências comportamentais, o termo é Dependência Comportamental ou Vício Comportamental (e.g., Transtorno de Jogo).
Abstinência (Síndrome de Abstinência): Um conjunto de sintomas físicos e/ou psicológicos desagradáveis que ocorrem quando o uso da substância é interrompido ou drasticamente reduzido, ou quando o comportamento é impedido. A pessoa usa a substância/comportamento para aliviar ou evitar esses sintomas.
Tipos de Dependência
A dependência pode ser categorizada em duas grandes áreas, embora ambas envolvam processos cerebrais e emocionais semelhantes.
1. Dependência Química (Relacionada a Substâncias)
Envolve a ingestão de substâncias químicas que alteram o humor, a percepção e a consciência.
2. Dependência Comportamental (Não-Química)
Envolve o envolvimento compulsivo e descontrolado em certas atividades, as quais, apesar de não serem substâncias, ativam os mesmos circuitos de recompensa no cérebro que as drogas.
Dependência Relacional/Afetiva (Codependência): Um padrão de comportamento em que uma pessoa se concentra excessivamente nas necessidades dos outros, buscando validação e identidade através de relacionamentos. Caracteriza-se pela dificuldade em estabelecer limites saudáveis e pelo medo intenso de abandono, levando a uma dependência emocional e à permanência em relações disfuncionais ou abusivas.
Dependência Social (Vício em Mídias Sociais/Internet): O uso excessivo e compulsivo de redes sociais ou da internet em geral, com prejuízo nas áreas acadêmica, profissional e social. O indivíduo sente uma intensa ansiedade se desconectado.
A Importância para o Planejamento
É importante ressaltar, em consonância com suas solicitações anteriores de relatórios de conceitos, que a compreensão desses conceitos é crucial para o planejamento de intervenções e prevenção:
Reconhecimento Precoce: Conhecer os sinais de Tolerância e Abstinência permite intervir antes que a dependência se consolide.
Tratamento Efetivo: Entender a Compulsão (Craving) é essencial para planejar terapias que ajudem o indivíduo a gerenciar o desejo intenso.
Estratégias de Prevenção: Saber que as dependências comportamentais ativam os mesmos circuitos cerebrais que as químicas ajuda a planejar a prevenção, focando no manejo da recompensa e na regulação emocional para ambos os tipos.
QUAL É O SEU TIPO DE DEPEDÊNCIA?
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