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Automatismos no Comportamento Humano

 

Automatismos no Comportamento Humano 


O Piloto Automático da Mente


A Eficiência Oculta no Comportamento Humano




O comportamento humano, à primeira vista, parece ser o resultado de uma série contínua de escolhas conscientes e deliberações racionais. No entanto, a realidade é que a maior parte das nossas ações e pensamentos cotidianos é regida por um complexo sistema de automatismos.


Estes automatismos são ações, reações ou processos cognitivos que ocorrem com pouca ou nenhuma intervenção da atenção consciente. Eles representam a solução mais engenhosa da evolução para o problema da sobrecarga cognitiva.


Por que isso é vital?


Se tivéssemos que dedicar energia mental para respirar, caminhar ou digitar, seríamos incapazes de processar informações novas ou resolver problemas complexos. O automatismo, seja ele um hábito motor (como dirigir um carro) ou um pensamento automático (como um julgamento rápido), permite uma essencial economia de energia cerebral. Isso libera recursos para aquilo que realmente exige nossa capacidade de raciocínio, como o planejamento estratégico ou a tomada de decisões morais.


Do atleta que treina para que sua defesa seja um reflexo instantâneo, aos padrões de consumo que nos levam a escolher uma marca sem pensar, os automatismos são a base da nossa eficiência e, por vezes, a origem dos nossos desafios.


Ao longo desta discussão, exploraremos os conceitos da Psicologia, Neurociência e até mesmo da Filosofia que buscam responder: Onde termina a máquina e começa a consciência? E, mais importante, como podemos retomar o controle dos automatismos desadaptativos para vivermos de forma mais intencional?



Olá, meu nome é Everton Andrade, sou Professor, Psicanalista, Instrutor de Formação Técnica Profissional, Técnico em Saúde e Segurança do Trabalho, entre outras formações.

Tenho como objetivo profissional, o desenvolvimento do comportamento humano e ajudo meus alunos e clientes em diversos desafios comportamentais, profisionais e pessoais.


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🧠 Conceitos e Definições Fundamentais


1. Definição de Automatismo

  • Sentido Literal: O estado ou atributo do que é automático.

  • Em Psicologia/Fisiologia: Atividade, movimento ou processo mental (pensamento/juízo) que é realizado sem a necessidade de atenção consciente constante ou de uma deliberação voluntária no momento da ação. É uma ação devido a estímulos internos ou externos que se torna, de certa forma, inconsciente ou subconsciente.


2. O Papel dos Hábitos e da Economia Cognitiva

  • Os automatismos são frequentemente o resultado da formação de hábitos através da repetição e da memorização de experiências anteriores (processo conhecido como automatização).

  • Economia de Energia Cerebral: O cérebro busca maximizar sua eficiência e resistência, realizando tarefas rotineiras ou repetitivas de forma automática. Isso libera recursos cognitivos (atenção e esforço consciente) para serem dedicados a novas tarefas, problemas complexos ou tomada de decisões.

    • Exemplo: Dirigir, escovar os dentes ou andar.


3. Automatismo Normal vs. Patológico

  • Normal: Refere-se às ações e pensamentos do dia a dia que se tornaram automáticos para facilitar a rotina (ex: caminhar, digitar, certos julgamentos rápidos). O "piloto automático" é natural e necessário.

  • Patológico: Em contextos clínicos (medicina e psiquiatria), o automatismo pode se referir a comportamentos involuntários associados a certas condições neurológicas ou psiquiátricas (ex: Esquizofrenia, Síndrome de Tourette, certos reflexos anormais).


4. Pensamentos Automáticos

  • Não se restringem apenas a ações físicas. A psicologia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), estuda os "pensamentos automáticos".

  • São ideias, imagens ou lembranças que surgem espontaneamente na mente, sem esforço ou deliberação. Eles podem ser neutros, mas muitas vezes são enviesados e distorcidos (distorções cognitivas), afetando o humor e o comportamento de forma negativa (ex: autocondenação, catastrofização).






🔬 Estudos e Implicações

Os automatismos são estudados em diversas áreas da psicologia:


1. Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia

  • Foco: Entender como o cérebro processa informações e executa tarefas sem atenção constante, e como a automatização de habilidades acontece (formação de novas conexões neurais).

  • Implicações: Cruciais para o estudo da memória de trabalho e para o desenvolvimento de técnicas de ensino e treinamento eficazes.


2. Psicologia Comportamental (Análise do Comportamento)

  • Foco: Análise de como as consequências ambientais (reforço) estabelecem e mantêm os padrões de comportamento, incluindo o reforçamento automático (o próprio comportamento produz a consequência reforçadora).

  • Implicações: Entendimento de padrões repetitivos, como vícios ou comportamentos problemáticos, e como eles podem ser modificados através de mudanças nas contingências ambientais.


3. Psicologia Social

  • Foco: Estuda como os automatismos influenciam opiniões, julgamentos e estereótipos. Muitos de nossos juízos sobre o mundo e sobre o outro são o resultado de um processamento automático de informações baseadas em experiências sociais e culturais prévias.


4. Modificação de Automatismos

Os estudos também se concentram em como é possível modificar padrões automáticos, especialmente aqueles que são negativos ou desadaptativos.

  • A chave é a conscientização: tornar-se consciente da ação ou pensamento automático.

  • Técnicas como a Presença Plena (Mindfulness) e a Reestruturação Cognitiva (na TCC) são utilizadas para "desligar o piloto automático" e desenvolver novos padrões comportamentais e de pensamento mais adaptativos.









✅ O Automatismo como Mecanismo de Sobrevivência e Eficiência


1. Redução da Carga Cognitiva e Economia de Energia (Foco)

O ato de economizar energia, e esse é o ponto nevrálgico:

  • Liberação de Recursos: Se precisássemos de atenção consciente para respirar, piscar ou controlar o equilíbrio ao caminhar, o nosso cérebro ficaria sobrecarregado e ineficaz.

  • Capacidade de Multitarefa: O automatismo permite que o córtex pré-frontal (responsável pelo planejamento e pela tomada de decisão) se dedique a tarefas novas, complexas ou perigosas, enquanto o cerebelo e os gânglios da base (responsáveis pelo aprendizado e pelo hábito motor) cuidam do básico.


2. Aumento da Velocidade e Precisão (O Lutador)

O exemplo do lutador é perfeito para ilustrar o conceito de habilidade motora automatizada:

  • Tempo de Reação Zero: No combate ou em uma emergência, o tempo de reação precisa ser quase instantâneo. A deliberação consciente (pensar "ele está vindo pela esquerda, devo levantar o braço") é lenta demais.

  • Memória Muscular: O treinamento repetitivo move a execução da ação de uma área consciente para as áreas motoras automáticas do cérebro. O lutador treina para que a defesa ou o ataque ocorra como um reflexo condicionado complexo.

  • Alto Desempenho: Esse princípio se aplica a músicos, cirurgiões, atletas e motoristas de Fórmula 1, onde a precisão e a velocidade são críticas.


3. Funções Vitais Automáticas (Ações Vitais para a Vida)

As ações mais cruciais para a sobrevivência são totalmente automáticas e gerenciadas pelo nosso sistema nervoso autônomo, como você observou:

  • Respiração: O controle do ritmo respiratório.

  • Batimentos Cardíacos: O gerenciamento da circulação sanguínea.

  • Digestão: O processamento de alimentos e absorção de nutrientes.

  • Reflexos de Proteção: O piscar dos olhos, a retirada da mão de uma superfície quente, o reflexo do joelho.



Em suma, a complexidade da vida humana só é possível porque o cérebro tem a capacidade de transformar a intenção em rotina e a rotina em automatismo

Isso é o que nos permite evoluir, aprender e interagir com um ambiente complexo sem colapsar sob a carga de ter que processar cada detalhe.












O conceito de automatismo

no seu sentido mais literal e mecanicista, de 

autômato 

(do grego automatos, "movido por si mesmo") — é uma ideia fascinante que atravessa a história da filosofia, da ciência e da literatura.

Essa jornada reflete a eterna preocupação humana com a natureza da vida, da consciência e do livre arbítrio.





🏛️ Na História e na Filosofia


1. Antiguidade e o Autômato Mecânico

O conceito inicial de autômato era primariamente mecânico.

  • Grécia Antiga: Os relatos mais antigos datam da Ilíada de Homero, que descreve os Tripés de Hefesto (mesas autopropulsoras) e as servas de ouro (autômatos com inteligência rudimentar).

  • Heron de Alexandria (Século I d.C.): Um dos grandes inventores, Heron criou inúmeros dispositivos automáticos usando hidráulica e pneumática, como portas de templos que se abriam "magicamente" e pássaros mecânicos. Estas criações eram vistas como demonstrações da capacidade humana de imitar a vida e fascinar, misturando engenharia com o mistério.



2. A Revolução Científica e o Mecanicismo

A partir do século XVII, o autômato deixou de ser apenas um brinquedo engenhoso e se tornou um paradigma filosófico para entender o ser vivo.

  • René Descartes (Século XVII): Descartes concebeu o corpo animal e, em parte, o corpo humano (exceto a alma pensante) como máquinas complexas. Para ele, os animais eram meros autômatos desprovidos de alma, agindo por reflexos puramente mecânicos. Essa visão consolidou o dualismo (mente/corpo) e a ideia de que o comportamento automático era o oposto da razão.

  • Baruch Espinosa (Século XVII): Espinosa utilizou o termo "autômato espiritual" para designar o ser que age de acordo com as leis da sua própria natureza (ou de Deus/Natureza), e não por um impulso exterior. Curiosamente, aqui o "autômato" se torna um sinônimo de autonomia e espontaneidade do pensamento, operando a partir de leis internas e necessárias.



3. Automatismo na Psicopatologia

O termo "automatismo" ganhou grande relevância na psiquiatria no final do século XIX e início do século XX.

  • Gaëtan Gatian de Clérambault (Início do Século XX): Este psiquiatra francês desenvolveu a Síndrome do Automatismo Mental. Ele descreveu uma série de fenômenos (como o eco do pensamento, vozes interiores neutras e ações mentais involuntárias) que ocorrem sem a participação do "Eu" do paciente. Essa síndrome foi crucial para o estudo das psicoses, onde o comportamento e os pensamentos parecem ser "automáticos" e impostos de fora, sendo retomada por autores como Lacan.







📚 Na Literatura e nas Artes

O autômato e o automatismo do comportamento 

são poderosos temas literários, 

frequentemente explorando 

o medo do inorgânico, 

a perda da identidade e 

os limites entre o humano e a máquina.



1. O Romantismo e o Unheimlich (E.T.A. Hoffmann)

  • O Homem de Areia (1816), de E.T.A. Hoffmann: É o texto canônico da literatura sobre autômatos. A personagem Olimpia é uma autômata perfeita, cuja beleza e perfeição mecânica a tornam indistinguível de um ser humano para o protagonista Nathanael, que se apaixona por ela.

    • Significado: Esta obra influenciou a teoria do "estranho inquietante" (Unheimlich), de Freud, ilustrando o medo de que o inanimado ganhe vida e a angústia de confrontar um ser que imita o humano, mas que carece de alma ou emoção, expondo a nossa própria natureza "maquínica" e automática.


2. O Século XIX e a Criação Artificial

  • Frankenstein (1818), de Mary Shelley: Embora não seja um autômato mecânico, o Monstro de Frankenstein é a criação artificial suprema, alimentada pelo desejo humano de dar vida. A obra questiona a responsabilidade do criador e a alma da criatura, temas intimamente ligados à reflexão sobre o autômato.


3. A Crítica ao Mecanicismo Social (Séculos XIX e XX)

  • Temas de Crítica: Na medida em que a Revolução Industrial mecanizava o trabalho, muitos autores criticaram a sociedade que transformava o ser humano em um autômato social, um mero componente da máquina capitalista ou burocrática.

  • O Rouxinol (Hans Christian Andersen): Na fábula, o autômato (o rouxinol artificial) é belo e preciso, mas incapaz de expressar a verdadeira emoção e vida do rouxinol natural, um contraste que se opõe ao automatismo da razão em favor da espontaneidade da natureza.

  • A "Morte" de Deus e o Existencialismo: Autores do século XX como Samuel Beckett (com sua peça Esperando Godot) frequentemente representam personagens presos em rotinas repetitivas e aparentemente sem sentido, refletindo o automatismo existencial e a falta de propósito na vida moderna, impulsionando as ideias de autenticidade contra a automação da vida.





🏃 Automatismos Motores e de Habilidade (Hábitos Físicos)

  1. Caminhar/Andar: Não pensar conscientemente em colocar um pé à frente do outro.

  2. Digitar: Localizar as letras no teclado sem olhar, usando a memória muscular.

  3. Dirigir: Realizar a maioria das manobras (trocar marchas, frear, acelerar) sem esforço consciente, permitindo que a mente divague.

  4. Escovar os Dentes: Seguir a mesma rotina e sequência de movimentos todos os dias.

  5. Amarrar os Sapatos: Executar o nó sem precisar pensar nas etapas.

  6. Escrever à Mão: Formar as letras sem focar no traçado de cada uma.

  7. Destrancar uma Porta: Inserir a chave e girar (o movimento se torna fluido).

  8. Nadar: Executar os movimentos de braços e pernas em sequência rítmica.

  9. Fazer Café/Chá: Seguir a rotina de preparo sem pensar nas quantidades ou passos.

  10. Comer: Levar a comida à boca, mastigar e engolir (exceto em refeições atentas).





💡 Automatismos Cognitivos e Perceptuais (Pensamentos e Processamento)

Estes envolvem processamento de informação, julgamentos rápidos e linguagem.

  1. Leitura Fluente: Reconhecer instantaneamente palavras inteiras em vez de decifrar letra por letra.

  2. Compreender a Linguagem: Processar frases e extrair significado sem analisar a gramática.

  3. Associação de Nomes e Rostos: Lembrar do nome de alguém ao ver seu rosto imediatamente.

  4. Pensamentos Automáticos (TCC): Ideias ou julgamentos rápidos e enviesados que surgem na mente, como autocríticas ou catastrofização.

  5. Preenchimento de Informações Faltantes: O cérebro automaticamente completa um padrão incompleto (ex: completar uma palavra ou frase).

  6. Categorização Social: Ativar estereótipos ou pré-conceitos ao interagir com diferentes grupos sociais (estudos de Psicologia Social).

  7. Tomada de Decisão Rápida: Optar por uma marca ou produto familiar no supermercado sem deliberar sobre as alternativas.

  8. Reconhecimento de Voz: Saber quem está falando imediatamente sem processamento consciente.

  9. Cálculos Simples: Responder "quanto é 2+2" instantaneamente.

  10. Usar Gírias/Expressões: Utilizar frases de efeito ou jargões sem pensar na sua composição.





🔄 Automatismos de Rotina e Emocionais (Hábitos Diários e Reações)

Estes são padrões de comportamento ou reações emocionais aprendidas.

  1. Pegar o Celular: Acessar o smartphone (e redes sociais/notícias) em momentos de tédio ou espera.

  2. Abrir Aplicativos: Clicar nos ícones das redes sociais no mesmo local da tela sem olhar.

  3. Rotina Matinal: Seguir a sequência de despertar, ir ao banheiro, vestir-se, etc., na ordem habitual.

  4. Caminho para o Trabalho: Dirigir ou caminhar pela rota familiar sem prestar atenção ao trajeto.

  5. Reação a Gatilhos de Estresse: Responder ao estresse com um comportamento padrão (ex: comer demais, fumar, roer unhas).

  6. Postura Corporal: Assumir a postura habitual (encolhida, ereta, etc.) sem intenção consciente.

  7. Expressões Faciais: Reagir com a microexpressão facial habitual a certas emoções.

  8. Higiene Pessoal: A sequência de tarefas no chuveiro ou ao se arrumar.

  9. Uso de Palavras de Preenchimento: Usar repetições verbais ("tipo assim", "né", "então") durante a fala.

  10. Reação de Defesa: Assumir uma postura defensiva ou agressiva diante de uma crítica, sem processar a informação logicamente.






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