Consciente e Inconsciente: Definições e Conceitos
A forma mais influente de conceituar o consciente e o inconsciente, especialmente na psicologia, provém da teoria de Sigmund Freud, o fundador da Psicanálise.
Introdução:
O estudo da mente humana e de seus diferentes níveis de funcionamento representa um dos maiores e mais fascinantes desafios da psicologia, da neurociência e da filosofia. No cerne desta exploração estão os conceitos de Consciente, Inconsciente e, em algumas abordagens, o Subconsciente ou Pré-Consciente.
Esses termos descrevem as distintas dimensões do aparelho psíquico responsáveis pela percepção da realidade, pelo armazenamento de memórias e pela motivação do comportamento. Enquanto o Consciente abarca o que é percebido e acessível no momento presente, o Inconsciente revela-se como o vasto e profundo reservatório de forças psíquicas — desejos, medos, e conteúdos reprimidos — que, embora inacessíveis diretamente, exercem uma influência fundamental e contínua sobre a vida e as escolhas de um indivíduo.
Meu nome é Everton Andrade, sou professor e estudo o comportamento humano.
Historicamente, Sigmund Freud formalizou esses conceitos através da Psicanálise, postulando o Inconsciente como a chave para a compreensão dos sintomas neuróticos. Mais recentemente, a Neurociência Cognitiva tem fornecido bases biológicas para estes sistemas, estudando os processos não-conscientes que dominam a atividade cerebral e a formação de hábitos.
Portanto, a compreensão desses níveis mentais é crucial não apenas para a psicologia clínica, mas também para o entendimento das bases biológicas da cognição, da emoção e da própria experiência humana. Este tópico nos convida a explorar a complexa arquitetura da mente e como a interação entre o que sabemos e o que não sabemos sobre nós mesmos molda a nossa realidade.
Pincipipais afirmações desta conversa:
O Modelo Clássico da Psicanálise (Freud)
A Mente é Estruturada em Tópicas: A mente humana é composta por sistemas que determinam o fluxo de energia psíquica, sendo a divisão entre Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente (Primeira Tópica) o modelo fundamental.
O Inconsciente é o Grande Motor: O Inconsciente é a instância psíquica mais vasta e profunda, albergando desejos reprimidos, traumas e impulsos regidos pelo processo primário (sem lógica, atemporal), sendo a principal força motivadora do comportamento humano.
O Consciente É a Superfície: O sistema Consciente representa a porção da mente que lida com a percepção imediata e o contato com o mundo externo, operando sob o princípio da realidade.
Pré-Consciente É o Limiar: O Pré-Consciente armazena conteúdos (memórias, ideias) que não estão na consciência imediata, mas que são acessíveis voluntariamente por meio de um esforço de atenção.
II. O Conceito de Subconsciente
Subconsciente Corresponde ao Pré-Consciente: Na terminologia formal da Psicanálise, o conceito popular de Subconsciente é melhor definido como o Pré-Consciente, a área de armazenamento de informações que está "à espera" de ser trazida à consciência.
O Subconsciente É Programável (Visão Popular): Em abordagens não-clássicas e de desenvolvimento pessoal, o Subconsciente é visto como um repositório de hábitos e crenças que, através de repetição e técnicas como a visualização, pode ser reconfigurado (reprogramado) para gerar novos resultados.
III. A Visão da Neurociência e da Psicologia Cognitiva
Processos Não-Conscientes Dominam: A Neurociência reconhece a existência de um vasto conjunto de processos cognitivos não-conscientes (ex: memória implícita, processamento subliminar) que influenciam a decisão e a ação, demonstrando que a maior parte do processamento cerebral é automática e invisível à consciência.
Consciência É um Fenômeno Biológico: A consciência (o sistema Consciente) é considerada o produto subjetivo da atividade neuronal integrada no cérebro, uma propriedade emergente da matéria física, conforme explorado por autores como António Damásio.
IV. Expansões (Jung e Kandel)
Existe um Inconsciente Coletivo (Jung): Carl Jung postulou que, além do inconsciente pessoal, há um Inconsciente Coletivo, uma camada herdada que contém arquétipos (padrões universais) que influenciam as narrativas e símbolos humanos.
A Psicanálise Possui Base Biológica (Kandel): Autores como Eric Kandel argumentam que os processos psíquicos inconscientes descritos por Freud são, fundamentalmente, processos cerebrais que podem ser estudados pela biologia molecular e pela neurociência.
1. A Perspectiva Psicanalítica (Freud)
Freud propôs a Primeira Tópica da mente, que a divide em três "locais" psíquicos:
O Consciente (Cs.)
Definição: É a menor e mais superficial parte da mente. Representa tudo aquilo que podemos perceber e acessar intencionalmente no momento presente. É o estado de estar alerta e ciente de si e do ambiente.
Características: Opera de acordo com o princípio da realidade e obedece às regras sociais, de tempo e espaço. É a instância responsável pela nossa relação racional com o mundo exterior.
O Pré-Consciente (Pcs.)
Definição: É a camada intermediária, uma ponte entre o consciente e o inconsciente. Contém memórias, pensamentos e sentimentos que não estão no foco da consciência no momento, mas que podem ser trazidos à consciência com um simples esforço de atenção ou lembrança.
Exemplo: O que você comeu no café da manhã — a informação estava "guardada", mas pode ser acessada.
O Inconsciente (Ics.)
Definição: É o nível mais profundo e complexo da mente, a maior parte do aparelho psíquico. É constituído por conteúdos (desejos, medos, traumas, impulsos) que foram reprimidos ou que nunca tiveram acesso à consciência.
Características: É atemporal (não segue a ordem cronológica dos fatos) e não obedece à lógica. É a principal força motivadora do comportamento e da personalidade, manifestando-se em sonhos, atos falhos (lapsos), sintomas psicológicos e na livre associação. Freud acreditava que a maior parte do comportamento humano é governada por processos inconscientes.
2. Outras Referências e Conceitos
Carl Jung: Um dos seguidores de Freud que desenvolveu sua própria teoria. Jung separou o inconsciente em inconsciente pessoal (semelhante ao freudiano) e inconsciente coletivo (estrutura psíquica herdada, contendo arquétipos e padrões de funcionamento comuns à humanidade).
Neurociência: Os estudos neurocientíficos abordam a consciência e a inconsciência sob a ótica da atividade cerebral. A consciência é frequentemente vista como o lado subjetivo dos eventos psíquicos, emergindo da matéria (o cérebro) e da atividade de um sistema específico, como o sistema percepção-consciência. O processamento inconsciente (ou não-consciente) é extensivamente estudado, revelando que os indivíduos adquirem e registram informações fora da atenção consciente (Ex: percepção subliminar, memória implícita).
🔬 Publicações e Referências Científicas
As publicações científicas sobre o tema geralmente se dividem entre a tradição psicanalítica, as pesquisas cognitivas e as neurociências, buscando cada vez mais o diálogo entre elas.
Psicanálise Clássica
Sigmund Freud: Obras como A Interpretação dos Sonhos (1900), onde a consciência é definida como um "órgão sensorial para a percepção de qualidades psíquicas," e os textos sobre a Metapsicologia (como O Inconsciente, 1915).
Jacques Lacan: Afirmou que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, base da existência do sujeito.
Diálogo Psicanálise e Neurociência
Antonio Imbasciati: Autor de Consciente, Inconsciente e Memória: Cinco ensaios entre a psicanálise e as neurociências (2024), que explora a unidade Corpo-Cérebro-Mente e como o inconsciente é visto como memória.
Artigos de Revisão: Trabalhos como "O inconsciente e a consciência: da psicanálise à neurociência" (Lyra, 2007) buscam revisar os conceitos freudianos à luz dos avanços neurobiológicos.
Neurociência e Filosofia da Mente
António Damásio: Em O Mistério da Consciência (1999), distingue diferentes tipos de consciência e defende que a mente emerge do cérebro.
Gerald M. Edelman: Defende que a mente emerge da matéria que constitui o cérebro, distinguindo também tipos de consciência.
Referências Cognitivas: Pesquisadores como Bernard J. Baars (Teoria Cognitiva da Consciência) e David Chalmers (O Cérebro Consciente) exploram o problema da consciência (o "problema difícil" de como a experiência subjetiva surge da matéria física).
Definição de Subconsciente
O termo Subconsciente é frequentemente utilizado no vocabulário popular, em áreas como a Programação Neurolinguística (PNL) e a autoajuda, e é uma denominação não-preferencial ou não-padrão dentro da Psicanálise Clássica.
Na psicologia científica e na psicanálise, o conceito mais adequado para descrever o que é comumente chamado de subconsciente é o Pré-Consciente.
1. Perspectiva Psicanalítica Clássica (Freud)
Na Psicanálise de Sigmund Freud, não há o termo "subconsciente" no modelo formal (Primeira Tópica). A estrutura da mente é dividida em três partes principais:
| Conceito Psicanalítico | Característica Principal | Correspondência ao "Subconsciente" Popular |
| Consciente | Percepção imediata, o que se está ciente no momento. | A parte de cima do "iceberg". |
| Pré-Consciente | Conteúdo que não está consciente agora, mas que pode ser acessado facilmente por meio da atenção. | É o conceito mais próximo da definição popular de "subconsciente". |
| Inconsciente | Conteúdo reprimido, inacessível à consciência sem um trabalho de análise (ex: traumas, desejos reprimidos). | A parte profunda e inacessível do "iceberg". |
Portanto, para a Psicanálise, o Subconsciente corresponde ao Pré-Consciente. Ele armazena as lembranças, conhecimentos e informações que podem ser trazidos de volta à consciência de forma voluntária (ex: lembrar o nome de um amigo ou o que almoçou ontem).
2. Uso Popular e em Outras Áreas
Fora da Psicanálise estrita, o termo subconsciente é amplamente utilizado e geralmente se refere a:
Conteúdos Acessíveis: Ideias, emoções, memórias e hábitos que influenciam o comportamento, mas que estão logo abaixo do limiar da consciência e podem ser acessados com algum esforço ou por meio de técnicas específicas (como a hipnose ou a auto-sugestão).
Sede de Emoções e Hábitos: É visto como o repositório de memórias de longo prazo, de crenças limitantes e de padrões de reação automática (hábitos) que formam a "essência" ou o "verdadeiro eu" da pessoa.
Resumo da Definição
O subconsciente é definido como a camada da mente que está abaixo do consciente, mas acima do inconsciente. Ele contém:
Memória de Longo Prazo (facilmente acessível).
Hábitos e Padrões Automáticos (que controlam a maior parte das ações diárias).
Emoções e Sentimentos que não estão no foco da atenção, mas que podem ser evocados
Subconsciente:
Visões Contemporâneas e Não-Clássicas
1. Psicologia Analítica (Carl Jung)
Carl Jung, embora tenha se baseado nos conceitos freudianos, expandiu o entendimento da mente.
Inconsciente Pessoal: É semelhante ao pré-consciente/subconsciente freudiano, contendo memórias, desejos reprimidos e pensamentos que foram esquecidos, mas que podem ser resgatados.
Inconsciente Coletivo: Esta é a grande distinção de Jung. Ele postula uma camada ainda mais profunda, herdada e compartilhada por toda a humanidade, que contém Arquétipos (padrões universais de pensamento e imagem, como a Sombra, a Anima/Animus, e o Velho Sábio).
2. Psicologia Cognitiva e Neurociência
Nestas áreas, o termo subconsciente é frequentemente evitado. Os conceitos utilizados são mais focados em processos e mecanismos cerebrais:
Pré-Consciente/Não-Consciente (Neurociência): Refere-se a todos os processos cognitivos que ocorrem no cérebro sem que tenhamos consciência deles, mas que são cruciais para o nosso funcionamento. Exemplos incluem:
Processamento de Informação: A filtragem e a organização de estímulos sensoriais antes que cheguem à consciência.
Memória Implícita/Procedural: Habilidades e hábitos que executamos automaticamente, como dirigir, amarrar os sapatos ou falar um idioma, sem precisar de atenção consciente.
Visão Cega (Blindsight): Pacientes com lesão cortical que não "veem" conscientemente, mas podem demonstrar reações não-conscientes a estímulos visuais.
3. Psicologia Humanista e Desenvolvimento Pessoal
Em áreas de autoajuda e psicologia popular, o subconsciente é visto como a chave para a transformação pessoal e é altamente valorizado como um campo de forças:
Repositório de Crenças: É onde estão armazenadas as crenças limitantes e as verdades mais arraigadas (muitas vezes adquiridas na infância) que determinam a realidade externa de uma pessoa.
Agente Criador (Joseph Murphy): Pensadores como Joseph Murphy, autor de O Poder do Subconsciente, veem-no como o "solo fértil" que não julga; ele apenas aceita e manifesta as sementes (pensamentos, imagens e emoções) plantadas pela mente consciente (o "jardineiro"). A repetição de afirmações positivas e a visualização são técnicas usadas para "reprogramar" o subconsciente.
Acessibilidade: É a parte da mente que, embora não seja facilmente acessível como o consciente, pode ser alcançada e influenciada por meio de técnicas como hipnose, autossugestão e terapias focadas em crenças.
Referências Essenciais sobre a Mente
I. Psicanálise Clássica (Obras Fundamentais)
Estas são as publicações de Sigmund Freud onde ele estabeleceu os modelos conceituais da mente (as tópicas psíquicas).
Freud, S. (1900). A Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung).
Relevância: É o trabalho que formalmente introduz a ideia do Inconsciente como o motor dos processos psíquicos e o conceito de Pré-Consciente como um sistema entre a consciência e o inconsciente.
Freud, S. (1915). O Inconsciente. (Artigos sobre a Metapsicologia).
Relevância: Oferece uma definição formal e detalhada do sistema Inconsciente, suas características (processo primário, atemporalidade) e sua relação com a repressão.
Freud, S. (1923). O Ego e o Id.
Relevância: Apresenta a Segunda Tópica (Id, Ego, Superego), que substitui, mas não anula, a Primeira Tópica (Consciente, Pré-Consciente, Inconsciente), integrando-as.
II. Psicologia Analítica e Jung
Jung, C. G. (1934). Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
Relevância: Fundamental para entender a distinção de Jung entre o Inconsciente Pessoal (mais próximo do Subconsciente/Pré-Consciente) e a camada profunda e herdada do Inconsciente Coletivo.
III. Neurociência e Filosofia da Mente (Consciência)
Estas obras abordam a consciência e o processamento não-consciente sob a perspectiva biológica e cognitiva.
Damasio, A. R. (1999). O Mistério da Consciência: Do corpo e das emoções ao conhecimento. (Título original: The Feeling of What Happens).
Relevância: Explora a base neural da consciência e a distinção entre a consciência nuclear e a consciência expandida, ligando os processos mentais ao corpo.
Edelman, G. M. (1992). Bright Air, Brilliant Fire: On the Matter of the Mind.
Relevância: Apresenta a teoria da Seleção de Grupos Neurais e discute a consciência sob um ponto de vista evolucionário e biológico.
Chalmers, D. J. (1996). The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory.
Relevância: Clássico da Filosofia da Mente, que introduz e explora o "Problema Difícil da Consciência" (como a experiência subjetiva, ou qualia, emerge da matéria física).
IV. Publicações sobre o Subconsciente (Visão Popular/Desenvolvimento Pessoal)
Estas são referências que popularizaram o termo "subconsciente" como uma ferramenta para o desenvolvimento pessoal.
Murphy, J. (1963). O Poder do Subconsciente. (Título original: The Power of Your Subconscious Mind).
Relevância: Um best-seller que trata o subconsciente como um sistema que pode ser reprogramado por meio da oração, afirmações e visualização para alcançar objetivos e curar doenças.
V. Publicações de Integração (Psicanálise e Neurociência)
Kandel, E. R. (1998). A New Intellectual Framework for Psychiatry. American Journal of Psychiatry, 155(4), 457–469.
Relevância: Embora seja um artigo, é altamente influente, pois propõe um novo arcabouço para a psiquiatria, enfatizando que os processos inconscientes (conforme entendidos pela psicanálise) são, em essência, processos cerebrais que podem ser estudados pela neurociência.

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